Viajar é muito bom, missão Mendonza

Acho que, no fundo, a gente guarda um pouco de espírito nômade dos antepassados.

Retornando de uma viagem de moto de 9.000 km – saímos, seis amigos em quatro motos do Planalto Central para Mendoza/AR – passei bastante tempo dentro do capacete pensando no quão divertido e compensador é estar na estrada. Meio doido isso de curtir caminhar, porque afinal, o destino é usufruído por muito menos tempo que o trajeto. Fiquei 13 dias em trânsito, para curtir 2 dias inteiros em Mendoza, e alguns minutos, talvez uma hora, em Los Andes. Saímos (Paulo e Dadah, Sandro e Cris, e eu) de Brasília para Anápolis, encontramos o Ricardo em Goiânia, e seguimos para São José do Rio Preto. Depois Cascavel, e no dia seguinte cruzamos a fronteira p a Argentina, indo dormir em Resistência. Seguimos para Villa Maria, com direito a um perdido de 55 km, que ao final nos desviou de uma borrasca daquelas no trajeto originalmente planejado. Finalmente chegamos a Mendoza, onde a Beatriz já esperava pelo Ricardo, e eu tive a felicidade de buscar minha Paula no aeroporto. Saímos para jantar a pé, porque iríamos tomar vinho. Os vinhos mendocinos são sensacionais! Nos esbaldamos! Previsão de tempo nublado no dia seguinte, e chuva dos dois próximos.

A turma toda na saida de Goiania

Então, adiantamos nossos planos para conhecer o Aconcágua por conta dessa previsão. Seguimos para a cordilheira dos Andes, e fomos abençoados com um tempo claríssimo, muito azul no céu, asfalto seco e paisagens fenomenais. No cume a neve deslumbrante nos fez parar antes de cruzar a fronteira para o Chile. Mas seguimos. Um túnel, chamado “do Cristo Redentor dos Andes”, começa do lado argentino e termina do lado chileno da montanha. A fronteira é dentro do túnel. Feitos os trâmites de entrada no Chile, descemos passando pelo trecho chamado “Los Caracoles”. O nome já diz como são as curvas. Raspei as plataformas da minha moto da descida e na subida. Paramos em Los Andes para abastecer, tomar um cerveja, e retornar para Mendoza. Já eram 17 horas. Subimos para a fronteira, passamos para a Argentina, e “esquecemos” de fazer o trâmite de reentrada!!! Uns 30 km à frente aguardamos na fila da fiscalização, quando fomos avisados de que tínhamos que retornar à migração. Lá fomos nós, e por falha de comunicação o Paulo passou pelo túnel. Nem precisamos pensar duas vezes… lá fomos todos nós atrás, e cruzamos para o Chile já anoitecendo. Foto na porta do túnel, retorna para a Argentina, e o trâmite burocrático resolvido, descemos para Mendoza fazendo o trajeto com uma noite seca, mas com neblina em alguns pontos. Os caminhoneiros aproveitam a diminuição da fiscalização e soltam os freios. Um autorama de moto, com caminhões na nossa cola durante toda a descida. Muito doido! Nunca imaginei que fosse me divertir tanto.
De volta a Mendoza, curti dois dias com a Paula.

Mendoza é uma cidade velha, mas tem um charme diferente. Conheci um sr. numa loja de artigos de couro que tinha uma Ramonot amarela na vitrine! E uma Royal Enfield na porta! As motos Ramonot foram as primeiras motos desenhadas e fabricadas na América Latina, por volta dos anos 30! As motos já eram realidade nos EUA e na Inglaterra (Harleys e Triumph), mas os Ramonot criaram suas primeiras motos em Mendoza! Depois se mudaram para San Martín, em sociedade com Oscar Casale, que levou a fábrica ao seu auge nos anos 40! Todo trabalhador argentino tinha uma Ramonot. “Se les ocurrió crear un motor, la diseñaron y empezaron a hacer las piezas con tornos. Ese fue el nacimiento de la primera moto Ramonot, única creación de motos locales sin licencias extranjeras” disse Ricardo, o filho de Pablo Ramonot ao El Sol, um periódico argentino. O sr. dono da loja me disse que tinha uma Harley Davidson também, mas essa estava em casa, porque foi um tanto castigada na 1ª grande guerra. Mendoza é MUITO mais que vinhos!!!

Deserto da Argentina

Voltando ao assunto, depois de dois dias andando a pé pela cidade, ou de táxi para conhecer o Parque Gen. San Martín, deixei a Paula no aeroporto, e começamos o retorno.

Estrada até Villa Maria, Resistência, e em Puerto Iguazu nos separamos. Paulo, Dadah, Sandro e Cris pernoitaram lá para conhecer as Cataratas; e eu e Ricardo seguimos para dormir em Cascavel. No dia seguinte, como planejamos, viramos em direção a Curitiba, seguindo para o “Rastro da Serpente”. É como chamamos um trecho de 261 km entre Curitiba e Capão Bonito/SP. São 1250 curvas, na descida e subida do vale do Ribeira. Mata fechada na maior parte do trajeto. Um paraíso para motociclistas. O asfalto está praticamente todo recuperado. Deslumbrante!

Dormimos em Apiaí, e em seguida em Ribeirão Preto. Lá tive que trocar o pneu traseiro da FatBoy. Apesar de sair com ele praticamente zerado de Brasília, com 8000 km de muito asfalto quente e o torque violento da V2, a lona começou a aparecer. Sapato novo, tocamos para Goiânia, onde Ricardo me ofertou a casa dele. Grande parceiro. O mineiro de Patrocínio é um grande motociclista, e conhece as melhores paradas de toda a região do triângulo mineiro para cima. Depois de um café com ele e os filhos, segui solo para casa, em Brasília.

Meus parceiros, Paulo e Dadah, Sandro e Cris, chegaram no dia seguinte, ainda a tempo de votar (2º turno). Todos bem, as máquinas sem dar qualquer problema (eu carregava uma mini oficina, tralha p acampar, e um mini hospital na bagagem. Nada foi usado, graças à Deus). Muita gratidão aos meus parceiros de asfalto; ao meu MotoClube – Os Rústicos MC; aos mecânicos que cuidam da minha moto – Ivandro, da Old Bikers, Vilmar e Leal; ao Agnaldo (Pulga) que criou várias peças p mim. E a todos que nos acolheram na estrada e nas paradas que fizemos.
Mas uma coisa que nunca vai dar para explicar é o sentimento de usufruir da companhia, ainda que remota, de três ídolos, me acompanhando durante a viagem.

1.- Folha (Felipe Dourado Cáurio), dos Carcarás/RJ, é o parâmetro de motociclista que me fez ver um mundo que só tinha visto nos cinemas. Cara culto, professor de História, leitor ávido e de um coração do tamanho da Floresta da Tijuca, onde rodamos e filosofamos juntos. Conhece tudo de rock e da cultura dos Moto Clubes; me ajudou quando resolvi customizar minha moto na R. Ceará, berço do motoclubismo brasileiro. Nem prospect eu era, e o cara me apresentou o Paulinho (Balaios), o Paulo Leal (Carcarás), Abutres, e até o Helmut eu encontrei numa ocasião em que fomos tomar um caldo. Muita história e livros p abrir a cabeça. Suporte quando quebrei a tíbia na subida da serra de Petrópolis. Muuuuita estrada ainda p gente comemorar.

2.- Gustavo Bertuci, amigo de infância/adolecência, motociclista long distance rider, metaleiro, e aventureiro. Na verdade, irmão mais novo do meu melhor amigo na adolecência, nos reencontramos em uma reunião de quadra, e depois na missa de 7º dia de seu irmão mais velho. Me deu todas as dicas do que eu ia enfrentar (e eu tinha uma idéia completamente diferente da realidade), e segundo um amigo dele, encarna perfeitamente o bordão “se não me fodo, não me divirto” HUAHUAHUA. Adora uma trilha de ripel, congelando e molhado. Cada vez que nos encontrávamos para conversar, ouvíamos rock da melhor qualidade, tomamos todas as cervejas possíveis até as 4h30 da madrugada, e encontrávamos as melhores opções de trajeto para minha aventura. O cara descobre todos os pubs “maça envenenada da Branca de Neve” por onde passa. Foram muitas dicas, muito incentivo e preparação mental para encarar o que é assustador para alguns. É o cara!

3.- Meu pai! Fernando AV Damasceno. Acho que devo a ele esse gosto pelo asfalto. Desde pequeno, 7 ou 8 anos, lembro que saíamos de Fusca ou Variante para as viagens de férias. Uma vez fomos a Asuncion (Paraguai), Montevideu (Uruguai) e Buenos Aires num recesso de final de ano. Outra para Salvador… Acampávamos em praias numa época em que a armação das barracas era feita com tubos de ferro! Imagina o peso… Agora, nesta viagem, se pegava um trecho molhado, escorregadio, e com spray de caminhões fazendo a pista sumir, sempre lembrava que meu pai estava rezando por mim. Parece que a luz se abria na minha frente, e o asfalto fazia um trilho seco para eu passar.

Contar com a companhia dos três diariamente no meu WhatsApp, além da minha família, dava motivação, segurança e muita confiança de que a viagem é muito boa, mas voltar para casa é melhor ainda!

LET´S RIDE!

NAVEGAR É PRECISO… VIVER NÃO É PRECISO…

Texto e fotos: André Damasceno

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